
THE DAILY HUMAN
Boa noite, melatonina
Naquela noite, dei boa-noite para a melatonina. Literalmente.
Coloquei o comprimido na boca, bebi um pouco de água e pensei: Boa noite.
Eu já fazia aquilo havia algum tempo. Não todas as noites. Só quando achava que precisava. Quando o dia tinha ido longe demais. Quando eu estava cansado, mas continuava acordado.
A melatonina ficava no criado-mudo. Ao lado do carregador. Eu gostava de saber que ela estava ali. Naquela noite, tomei. Apaguei a luz. E esperei.
Depois de alguns minutos, olhei o relógio. Ainda estava acordado. Virei para o outro lado. Fechei os olhos com um pouco mais de vontade, como se isso ajudasse. Abri de novo.
Peguei o celular. 23h48.
Eu estava esperando a melatonina me fazer dormir. Como quem espera um remédio para dor de cabeça começar a funcionar.
No dia seguinte, comentei isso com um amigo.
– Tomei melatonina ontem e fiquei esperando bater.
Ele riu.
– Bater?
– É.
– Você fala como se tivesse tomado um tranquilizante.
Ri também.
Naquela noite, não tomei nada. Esqueci. Só percebi quando já estava deitado. Pensei em levantar. O frasco estava a poucos metros. Não levantei.
Algum tempo depois, acordei. Era manhã. Na noite seguinte, tomei novamente.
A mesma mão
Há mudanças que acontecem diante dos nossos olhos e, ainda assim, levam anos para serem percebidas.
Queria que fosse amanhã
Às vezes, a palavra que usamos muda o jeito como entendemos aquilo que estamos sentindo.
