Algumas coisas a gente leva sem saber exatamente por quê. Só entende depois.

THE DAILY HUMAN

O chinelo

Estava arrumando a mochila para uma travessia de 25 quilômetros na Chapada Diamantina. Água, comida, chapéu, lanterna, facão.

Antes de fechar, vi o meu chinelo velho no canto. Daqueles já meio gastos, com a sola marcada pelo pé. Não havia motivo especial para levar. Também não pesava nada. Coloquei na mochila.

Saí de Lençóis cedo. A ideia era chegar ao Vale do Capão no fim da tarde. Nas primeiras horas, tudo correu como deveria.

A trilha entrava por cânions enormes. Em alguns trechos, eu parava só para olhar. Havia momentos em que aquela paisagem toda me fazia sentir muito pequeno.

Naquele período, eu já sabia que algumas coisas na minha vida estavam prestes a mudar. Não sabia exatamente como. Mas sabia. Continuei andando.

Peguei chuva. Depois frio. Mais tarde, o sol forte. Em alguns momentos ri sozinho. Em outros chorei. Eu levava muita coisa comigo naquele dia que não estava dentro da mochila. Continuei.

Algum tempo depois, começou um incômodo no pé. Primeiro foi só isso. Depois começou a arder. Parei, tirei o tênis e vi uma bolha no dedo. Coloquei de volta. Andei mais um pouco. Parei de novo.

A cada passo, o tênis encostava exatamente no mesmo lugar. Ainda faltava muita trilha. Sentei, abri a mochila e comecei a tirar as coisas de cima. Foi quando apareceu o chinelo. Fiquei olhando para ele. Tirei o tênis. Coloquei o chinelo. E continuei.

Precisava prestar mais atenção nas pedras. Diminuí o ritmo em alguns trechos. Mas conseguia andar. Passei horas com aquele chinelo velho no pé.

Quando cheguei ao Capão, já no fim da travessia, sentei. Tirei o chinelo. A sola estava coberta daquela poeira fina da trilha. Olhei para a mochila.

Eu tinha levado água. Comida. Chapéu. Lanterna. Facão. Depois olhei outra vez para o chinelo. Fiquei algum tempo olhando para ele.

  • Uma deitadinha

    Às vezes, parar por um tempo é justamente o que faz o restante do dia voltar a andar.