
THE DAILY HUMAN
A bateria acabou
O celular apagou quando eu ainda segurava o cabo.
Por alguns segundos, continuei encaixando o conector, como se o gesto pudesse desfazer o que já tinha acontecido. A tela permaneceu preta. Apertei o botão lateral uma vez. Depois outra. Nada.
Eu precisava sair em vinte minutos. O endereço estava ali. O comprovante estava ali. Até o nome da pessoa que eu encontraria estava ali. Foi estranho perceber que eu não tinha perdido um aparelho. Eu tinha perdido o resto da tarde.
Revirei a mochila atrás do carregador. Troquei de tomada. Limpei a entrada com a ponta da camiseta. Cada tentativa parecia carregar a mesma esperança silenciosa: daqui a pouco ele volta. Não voltou.
Sentei na beirada da cama e tentei lembrar o endereço. Sabia o bairro. Sabia a avenida. Conseguia enxergar a fachada. Mas não conseguia sair de casa. Fiquei um tempo tentando entender como isso era possível.
Lembrei do número de telefone da casa onde cresci. Lembrei do caminho até lá sem pensar. Em compensação, não fazia ideia do telefone da escola da minha filha. Nem sabia atravessar três bairros sem alguém dizendo onde virar. A bateria tinha acabado. Só então comecei a desconfiar de que talvez não fosse só ela.
Sempre achei que o celular tivesse libertado espaço na cabeça. Talvez tenha mesmo. O problema é que, sem perceber, passei a tratar como minhas algumas coisas que já não estavam mais comigo.
Encontrei um papel numa gaveta, anotei o que consegui reconstruir e saí mais cedo. Perguntei duas vezes. Errei uma rua. Reconheci uma padaria que não via fazia anos. Cheguei sete minutos atrasado. A pessoa nem comentou.
Na volta, o celular já tinha carga suficiente para acender. As mensagens apareceram de uma vez, como se o tempo tivesse resolvido correr atrás do prejuízo.
Abri o mapa por hábito. O ponto azul apareceu imediatamente. Fiquei olhando para ele alguns segundos antes de sair do lugar.
Antes de abrir a porta
Algumas pausas duram poucos segundos. Ainda assim, podem separar um lugar do outro.
O ombro duro
Eu achava que estava apenas com o ombro tenso. Até perceber que ele continuava preparado mesmo quando já não havia nada acontecendo.
