Eu só ia responder um e-mail. Quando percebi, comecei a desconfiar de quantas vezes voltava para aquela cadeira sem realmente decidir voltar.

THE DAILY HUMAN

A cadeira

Eu só ia responder um e-mail. Era coisa de dois minutos. Puxei a cadeira, sentei e comecei a digitar. Quando terminei, não levantei. Fiquei ali sem motivo. Olhando para a tela já apagada, como se ainda houvesse alguma coisa para fazer.

Levantei para buscar um copo d’água e, antes mesmo de chegar à cozinha, me peguei pensando em voltar. Aquilo me incomodou mais do que deveria. Sempre achei que a cadeira servia para trabalhar. Naquele dia, ela parecia servir para outra coisa.

Depois comecei a reparar em pequenas cenas. Terminava uma ligação e sentava. Respondia uma mensagem e sentava. Fazia uma pausa de cinco minutos e, sem perceber, já estava de volta no mesmo lugar. Era como se o corpo chegasse antes da decisão.

Por muito tempo achei que isso fosse só um hábito ruim. Até descobrir que o cérebro gosta de transformar o que se repete em caminho fácil. Quando um gesto acontece vezes suficientes, ele quase deixa de pedir permissão. Não foi essa ideia que me chamou atenção. Foi perceber quantas vezes eu voltava para a cadeira sem nunca ter decidido voltar.

Desde então, quando termino alguma coisa, às vezes fico de pé por mais alguns segundos. Olho pela janela. Ando até a varanda. Não porque isso aumente minha produtividade. Só para descobrir se ainda sou eu quem escolhe onde sentar.

Às vezes a cadeira continua exatamente onde sempre esteve. Quem já não chega até ela do mesmo jeito sou eu.

  • A escova de dentes

    A escova estava na minha mão, mas eu não sabia se já tinha escovado os dentes. Talvez o problema não estivesse exatamente na memória.

  • O exame de rotina

    Eu revisava o carro antes de viajar e cuidava do computador ao primeiro sinal de problema. Com o corpo, esperava que ele reclamasse primeiro.