Algumas pausas duram poucos segundos. Ainda assim, podem separar um lugar do outro.

THE DAILY HUMAN

Antes de abrir a porta

Cheguei em casa no fim do dia e, pela primeira vez, parei antes de abrir a porta. Não porque tivesse esquecido alguma coisa. A mão simplesmente ficou na maçaneta.

Do outro lado havia silêncio. Deste lado também. Percebi que aquele pequeno intervalo quase nunca existia.

A gente chega já entrando. Ainda respondendo mentalmente uma mensagem. Ainda terminando uma reunião. Ainda preso numa conversa que ficou para trás. O corpo chega antes. A cabeça nem sempre. Na hora me lembrei do meu pai.

Quando eu era criança, ele costumava parar alguns segundos antes de entrar em casa. Eu achava estranho. Imaginava que fosse cansaço. Nunca perguntei.

Anos depois, parado na mesma posição, a lembrança voltou com outro significado. Talvez ele não estivesse demorando para entrar. Talvez estivesse terminando de sair.

Fiquei ali mais alguns segundos. Depois girei a chave. Entrei.

  • Croc. Croc.

    Algumas escolhas começam muito antes de alguém dizer o que deveríamos escolher.