Eu apagava a luz e minha cabeça lembrava de tudo. Demorei para perceber que talvez o problema começasse alguns minutos antes de eu me deitar.

THE DAILY HUMAN

Cinco minutos antes de dormir

A primeira coisa que eu percebi foi um detalhe bobo. Eu apagava a luz, encostava a cabeça no travesseiro e, de repente, lembrava de tudo o que ainda não tinha feito. Não era uma preocupação específica. Era como se o silêncio abrisse todas as gavetas ao mesmo tempo.

A lista do mercado. Uma conversa mal resolvida. Uma conta. Uma ideia que parecia urgente só porque tinha aparecido naquele instante. O curioso é que isso nunca acontecia enquanto eu escovava os dentes. Nem quando fechava a casa. Era sempre depois.

Já deitado.
Durante muito tempo achei que esse era simplesmente o jeito da minha cabeça funcionar. Até perceber uma coisa estranha. Havia noites em que isso quase não acontecia. E elas não coincidiam com dias mais tranquilos. Os problemas eram praticamente os mesmos. Fiquei tentando descobrir o que mudava.

Demorei para notar que a diferença quase sempre aparecia cinco minutos antes de dormir. Não na cama. Antes dela.

Era quando eu respondia mais uma mensagem, via “só mais um” vídeo ou resolvia alguma coisinha rápida. Na minha cabeça, eu estava encerrando o dia. Hoje acho que estava fazendo justamente o contrário.

Quando fui atrás disso, descobri que o cérebro não muda de ritmo porque a gente apagou a luz. Ele precisa perceber que o dia realmente terminou. Foi nessa hora que me veio uma lembrança da infância. Ninguém dizia simplesmente: “vai dormir”.

Sempre existia um pequeno intervalo. Escovar os dentes. Separar a roupa do dia seguinte. Ouvir uma história. Pareciam apenas hábitos. Hoje me pergunto se não eram, na verdade, uma maneira de avisar ao corpo que já não havia mais nada a resolver.

Desde então, não tento convencer minha cabeça a dormir. Presto mais atenção no que acontece antes. Às vezes, basta observar aqueles cinco minutos para entender por que algumas noites parecem começar cansadas.

  • A escova de dentes

    A escova estava na minha mão, mas eu não sabia se já tinha escovado os dentes. Talvez o problema não estivesse exatamente na memória.

  • O exame de rotina

    Eu revisava o carro antes de viajar e cuidava do computador ao primeiro sinal de problema. Com o corpo, esperava que ele reclamasse primeiro.