Às vezes, adiar uma coisa dá mais trabalho do que finalmente encarar aquilo que estamos evitando.

THE DAILY HUMAN

Depois eu vejo

A caixa de entrada estava cheia. Nada de novo. O estranho era um e-mail que eu evitava abrir fazia três dias.

Os outros eu respondia. Arquivava. Apagava. Mas aquele permanecia exatamente no mesmo lugar, como se ganhasse peso a cada vez que eu passava por ele.

Primeiro achei que fosse preguiça. Depois culpei a falta de tempo. Só que nenhuma das duas explicações se sustentava. Eu gastava mais energia desviando daquele e-mail do que gastaria lendo. Então resolvi abrir.

Não era longo. Nem agressivo. Nem trazia uma notícia devastadora. Era apenas uma resposta que eu já esperava. Fechei a janela quase no mesmo instante.

Foi ali que percebi uma coisa curiosa. Eu não estava adiando a leitura. Estava adiando os minutos que viriam depois dela. De repente, fez sentido por que um e-mail fechado consegue ocupar tanto espaço.

O corpo parece chegar antes da mensagem. Basta imaginar um desconforto, e alguma coisa já começa a se preparar para ele.

Talvez por isso a frase que eu mais repetia fosse “depois eu vejo”. Nunca tinha reparado que ela escondia outra. “Depois eu enfrento.” As duas parecem iguais. Mas uma fala da agenda. A outra fala de mim.

Hoje ainda deixo alguns e-mails para mais tarde. Só que, antes de fechar a caixa de entrada, às vezes paro um segundo olhando para a tela. E fico tentando adivinhar se aquele e-mail realmente pesa…

…ou se sou eu quem já começou a carregá-lo antes mesmo de terminar a primeira linha.

  • A escova de dentes

    A escova estava na minha mão, mas eu não sabia se já tinha escovado os dentes. Talvez o problema não estivesse exatamente na memória.

  • A cadeira

    Eu só ia responder um e-mail. Quando percebi, comecei a desconfiar de quantas vezes voltava para aquela cadeira sem realmente decidir voltar.