
THE DAILY HUMAN
O prato vazio
Aconteceu tão rápido que eu só percebi quando fui levar o prato até a pia. Ele estava completamente vazio. Nem um grão de arroz. Nem um pedaço esquecido no canto. Na hora pensei: “Nossa, estava com muita fome.” Só depois veio o incômodo.
Eu não lembrava do gosto de quase nada.
Lembrei de quando era criança e demorava uma eternidade para terminar o almoço. Inventava desenhos com o feijão, separava a salada, deixava a batata para o final. Comer fazia parte do dia.
Em algum momento isso virou só mais uma coisa para resolver. Nos dias seguintes comecei a reparar. Terminava a refeição e mal conseguia lembrar dela. Era como se alguém tivesse avançado alguns minutos da minha vida sem me avisar.
Quase sempre havia alguma coisa acontecendo ao mesmo tempo. Uma tela acesa. Uma conversa. Uma mensagem. Ou a cabeça ocupada com um problema que nem estava sentado à mesa. O corpo fazia tudo sozinho. Quando percebi isso, o prato vazio deixou de significar apenas que eu tinha terminado de comer. Passei a notar outra ausência.
Hoje, de vez em quando, antes da primeira garfada, eu simplesmente espero alguns segundos. Não como um ritual. Só para ter certeza de que eu cheguei antes da comida acabar.
E, curiosamente, desde então, às vezes o prato continua ficando vazio.
Mas eu não.
Onze e meia ainda
Dez anos atrás, ninguém teria perguntado isso.
A bateria acabou
O celular ficou sem bateria. Só então percebi quantas coisas eu chamava de minhas sem que ainda estivessem comigo.
