Dez anos atrás, ninguém teria perguntado isso.

THE DAILY HUMAN

Onze e meia ainda

Cheguei achando que a gente ia jantar. Era aniversário de um amigo, oito pessoas na mesa, quase todo mundo com a mesma idade. Depois da sobremesa, alguém sugeriu outro bar.

Dois animaram na hora. Um casal disse que precisava ir embora porque acordava cedo. Outro queria ficar, mas ali mesmo.

– Pra que mudar de lugar?
Eu ri.

Dez anos atrás, ninguém teria perguntado isso. A noite começava num lugar e terminava sabe-se lá onde. Dessa vez, um queria música. Outro queria conversar. Um já estava olhando o aplicativo para chamar o carro. E tinha o que não parecia com sono nenhum, mas repetia que estava ótimo ali.

Ninguém parecia estar desistindo da noite. Fiquei porque também não estava com vontade de ir para outro bar.

Os dois que queriam música foram embora juntos. Pouco depois, o casal se despediu. Sobrou metade da mesa.

Pedimos mais uma rodada. Sem pressa.
Quando levantei para ir embora, um deles olhou o relógio.

– Onze e meia ainda.
Ainda.

Na calçada, enquanto esperava o carro, pensei nos dois que provavelmente estavam entrando no outro bar naquele momento. Não senti vontade de estar com eles. Também não achei que tivesse ido embora cedo.

  • O problema continuou ali

    Eu só ia conferir um detalhe. Quando percebi, quase uma hora tinha passado e o problema continuava exatamente onde estava.

  • E lembrei dele

    Alguns cheiros parecem guardar lugares, pessoas e épocas inteiras sem pedir licença à memória.