Algumas palavras desaparecem por alguns segundos. E justamente por isso ficam conosco por muito mais tempo.

THE DAILY HUMAN

Pediatra

Eu estava escrevendo uma frase quando parei no meio. Precisava de uma palavra. Eu sabia exatamente o que queria dizer.

Médico de criança. Não.
Médico que cuida de criança e adolescente. Também não.

Fiquei olhando para a frase incompleta na tela. Começava com P? Acho que sim. Pedi…
Nada.

Tentei continuar escrevendo para ver se ela aparecia sozinha. Não apareceu. Sem aquela palavra, a próxima linha também não vinha. Voltei para o espaço vazio.

E aquilo começou a me incomodar. Não era uma palavra difícil. Não era um nome que eu tinha ouvido uma vez. Era uma palavra que eu conhecia. Quando finalmente veio, veio inteira.
Pediatra.

Fiquei alguns segundos olhando para ela.
– Caramba… como é que eu não lembrei disso? Continuei escrevendo.

Mais tarde, fui pegar alguma coisa na cozinha e parei diante do armário. Abri uma porta. Depois outra. Fiquei olhando para dentro. Não lembrava o que tinha ido buscar. Fechei o armário.

Dei dois passos de volta. Como se voltar ao lugar de onde eu tinha saído pudesse trazer de volta o que eu tinha ido fazer.

Um copo. Voltei, peguei o copo e ri sozinho. Aquilo não me incomodou.
Talvez porque esquecer o que fui buscar na cozinha pareça uma coisa que todo mundo faz. Mas pediatra tinha ficado comigo.

No dia seguinte, precisei da palavra outra vez. Pediatra. Saiu na hora.

  • Croc. Croc.

    Algumas escolhas começam muito antes de alguém dizer o que deveríamos escolher.