Eu conhecia quase tudo que estava escrito ali, embora não lembrasse da última vez que tinha realmente lido.

THE DAILY HUMAN

O de sempre

Durante anos, pedi o mesmo sanduíche numa lanchonete perto do trabalho. Nem precisava olhar o cardápio. Eu sentava, o garçom vinha até a mesa e perguntava:

– O de sempre?
Era.

Naquele dia também.
Comi uma metade e deixei a outra no prato. Não estava ruim. Também não estava cheio. Fiquei algum tempo mexendo no guardanapo, esperando dar vontade de continuar. Não deu.

O garçom passou pela mesa e apontou para o prato.
– Aconteceu alguma coisa?
– Não. Está bom.

Ele olhou para o sanduíche. Depois para mim.
– Então embrulha?

Quase disse que sim. Era o que eu fazia quando sobrava alguma coisa. Mas olhei para aquela metade.
– Não precisa.

Na semana seguinte voltei à lanchonete. Sentei na mesma mesa. O garçom apareceu.
– O de sempre?

Olhei para o cardápio fechado na minha frente. Abri. Ele ficou esperando.

Eu conhecia quase tudo que estava escrito ali, embora não lembrasse da última vez que tinha realmente lido. Pedi outro sanduíche.

Enquanto esperava, vi passar o de sempre para outra mesa. Reconheci na hora. O pão, o queijo saindo pela lateral, até o cheiro. Era exatamente o mesmo.

  • Cinco minutos antes de dormir

    Eu apagava a luz e minha cabeça lembrava de tudo. Demorei para perceber que talvez o problema começasse alguns minutos antes de eu me deitar.

  • A bateria acabou

    O celular ficou sem bateria. Só então percebi quantas coisas eu chamava de minhas sem que ainda estivessem comigo.