Há gestos que ninguém precisa ensinar. Basta alguém estar olhando.

THE DAILY HUMAN

Só estou conferindo

Antes de sair para a escola, minha filha abre a mochila. Não é uma olhada rápida. Ela abre o zíper inteiro e começa a mexer lá dentro. Caderno. Estojo. Celular.

Depois pega a blusa que estava na cadeira e coloca também. Fico esperando perto da porta.
– Vamos?
– Calma.
Ela olha dentro da mochila mais uma vez.
Fecha.
– É bom conferir, né?
– É.
Descemos.

Só depois, já voltando para casa, fiquei pensando naquela frase. Porque eu confiro tudo. Antes de sair, vejo se estou com a chave. Carteira. Celular.

Quando vou viajar, abro a mala depois de pronta. Às vezes mais de uma vez. Nunca ensinei isso para ela. Pelo menos não me lembro de ter dito:
– Antes de sair, confira suas coisas.
Mas ela me viu fazer. Provavelmente muitas vezes.

No dia seguinte, estávamos quase saindo quando percebi que tinha esquecido o celular carregando. Voltei para buscar.

Quando cheguei à porta novamente, ela estava ali. Mochila aberta.
– Esqueceu alguma coisa?
– Não.
Mexeu um pouco lá dentro. Fechou o zíper.
– Só estou conferindo.
Dessa vez não respondi.

Fiquei olhando enquanto ela ajeitava a mochila nas costas. Era estranho reconhecer um gesto meu numa pessoa tão diferente de mim. Saímos.

Antes de fechar a porta, coloquei a mão no bolso. Chave. Celular. Carteira.
Ela já estava alguns passos à frente.

  • Croc. Croc.

    Algumas escolhas começam muito antes de alguém dizer o que deveríamos escolher.