Eu achava que estava apenas com o ombro tenso. Até perceber que ele continuava preparado mesmo quando já não havia nada acontecendo.

THE DAILY HUMAN

O ombro duro

Quando percebi, já estava respondendo e-mails com um ombro levantado.

Não era uma dor forte. Nem daquelas que fazem a gente parar. Era uma rigidez discreta, como se um lado do corpo tivesse decidido trabalhar sozinho. Levantei, estalei o pescoço e continuei o dia.

No outro, estava igual.
Depois de uma semana, parei de perguntar quando aquilo ia passar e comecei a tentar lembrar quando tinha começado. O estranho é que eu não encontrava um motivo. Não carreguei caixa, não mudei móveis, não fiz nenhum esforço que justificasse aquilo. Meu corpo parecia reclamar de um trabalho que eu nem lembrava de ter feito.

A resposta apareceu num momento completamente comum. Fui até a cozinha buscar um copo de água e, no meio do caminho, percebi que meu ombro continuava levantado. Não havia pressa. Ninguém esperava nada de mim. Mesmo assim, ele permanecia ali.

Foi a primeira vez que pensei que talvez o problema não fosse o ombro. Li depois que alguns músculos não reagem apenas ao que fazemos, mas também ao estado em que o cérebro acredita que precisa permanecer. Se ele entende que ainda é hora de ficar alerta, nem sempre manda o recado de que já pode relaxar.

Aquilo mudou a pergunta. Comecei a reparar em momentos pequenos. Enquanto esperava uma página abrir. Lendo uma mensagem. Ouvindo o celular vibrar. Até durante uma conversa sem nenhuma tensão. Meu ombro já estava preparado antes de qualquer coisa acontecer. O curioso é que eu vivia dizendo que estava cansado de correr. Meu corpo parecia achar que a corrida ainda nem tinha acabado.

Hoje, quando percebo aquela rigidez voltando, quase nunca começo alongando. Primeiro observo onde estou. Às vezes, parado no corredor de casa. Às vezes, sentado diante do computador.

E quase sempre descubro a mesma coisa. O dia ainda não terminou dentro de mim, mesmo quando já terminou do lado de fora.

  • A cadeira

    Eu só ia responder um e-mail. Quando percebi, comecei a desconfiar de quantas vezes voltava para aquela cadeira sem realmente decidir voltar.

  • Cinco minutos antes de dormir

    Eu apagava a luz e minha cabeça lembrava de tudo. Demorei para perceber que talvez o problema começasse alguns minutos antes de eu me deitar.