
THE DAILY HUMAN
O exame de rotina
Eu achei curioso quando a moça da recepção perguntou se eu tinha feito jejum.
Por um segundo, tentei lembrar não do café da manhã, mas do motivo de eu estar ali. Fazia tanto tempo desde o último exame que responder àquela pergunta parecia mais difícil do que deveria.
Enquanto esperava, fiquei olhando a sala. Ninguém conversava muito. Alguns deslizavam o dedo pelo celular. Outros encaravam a parede. Parecia que todo mundo dividia a mesma espera, mesmo sem saber exatamente pelo quê.
Sempre achei que exame de rotina servia para encontrar alguma coisa errada.
Talvez por isso eu adiasse tanto. Enquanto o resultado não existia, eu conseguia fingir que certas possibilidades também não.
Foi então que me ocorreu uma comparação incômoda. Eu revisava o carro antes de viajar. Atualizava o celular assim que aparecia uma notificação. Se o computador começava a ficar estranho, marcava assistência. Com o corpo, eu esperava que ele reclamasse primeiro. Só depois percebi que eu tratava meu corpo como aquele amigo para quem a gente só liga quando alguma coisa deu errado. Aquilo mudou o lugar da consulta.
Descobri que eu não tinha medo da agulha, nem do laboratório. O que eu evitava era interromper a sensação confortável de que estava tudo bem. Talvez por isso tantos problemas consigam passar um tempo despercebidos. O corpo nem sempre faz barulho quando alguma coisa começa a mudar.
Chamaram meu nome.
A coleta terminou antes que eu conseguisse terminar aquele pensamento. Na saída, passei pela mesma recepção onde tudo tinha começado.
Pela primeira vez, me ocorreu que talvez um exame de rotina não exista para provar que alguma coisa está errada. Talvez exista para que a gente não precise esperar o corpo pedir socorro para finalmente prestar atenção.
A escova de dentes
A escova estava na minha mão, mas eu não sabia se já tinha escovado os dentes. Talvez o problema não estivesse exatamente na memória.
O prato vazio
O prato estava completamente vazio. O incômodo veio quando percebi que quase não lembrava da refeição que tinha acabado de fazer.
