Comecei procurando uma informação e terminei com doze abas abertas. O estranho foi perceber o que eu realmente guardava em cada uma delas.

THE DAILY HUMAN

A aba do navegador

Eu tinha aberto o navegador para procurar uma informação. Era coisa de segundos. Quando voltei a prestar atenção na tela, havia doze abas abertas. Fiquei olhando para elas, tentando lembrar por onde tudo tinha começado.

Não consegui.
A pergunta que tinha me levado até ali tinha desaparecido. Restavam só as perguntas que nasceram depois. Isso acontece o tempo todo. Você entra para ver o horário de um filme. Alguns minutos depois está lendo sobre um ator, depois sobre a cidade onde ele nasceu, depois sobre um restaurante daquela cidade. Em algum momento, o filme deixa de existir.

Durante muito tempo achei que isso fosse falta de disciplina. Como se minha atenção escapasse de qualquer tarefa pela primeira distração que aparecesse. Só que essa explicação começou a falhar.

Quando alguém conta uma boa história, eu não sinto vontade de fazer outra coisa. Quando um livro me prende, as páginas passam sem que eu perceba. Minha atenção não some. Ela escolhe.

Foi olhando para aquelas abas que comecei a desconfiar de outra coisa. Nenhuma delas parecia importante sozinha. O problema era a promessa da próxima. Existe algo no cérebro que responde à novidade como se ela pudesse esconder uma recompensa. Não significa que toda novidade seja valiosa. Significa apenas que a possibilidade já basta para nos puxar um pouco mais.

Talvez por isso seja tão difícil fechar uma aba. Não parece que estamos fechando uma página. Parece que estamos desistindo de uma possibilidade.

Um dia resolvi fazer uma experiência. Antes de fechar qualquer aba, olhei para cada uma e me perguntei: “Eu ainda preciso disso?” Na maioria delas, a resposta demorava a aparecer. Percebi então que elas já não guardavam informação. Guardavam intenção.

Um artigo que eu imaginava ler. Uma ideia que eu imaginava desenvolver. Uma curiosidade que eu imaginava satisfazer. Era menos um navegador e mais um depósito de versões futuras de mim mesmo.

Desde esse dia, quando vejo uma fileira de abas ocupando a tela, não penso mais que estou cheio de trabalho. Às vezes estou apenas adiando a pequena decisão de aceitar que nem toda possibilidade precisa continuar aberta.

  • O ombro duro

    Eu achava que estava apenas com o ombro tenso. Até perceber que ele continuava preparado mesmo quando já não havia nada acontecendo.

  • O prato vazio

    O prato estava completamente vazio. O incômodo veio quando percebi que quase não lembrava da refeição que tinha acabado de fazer.