Uma manhã de home office, um pijama e uma pequena mudança de estado que acontece quando o dia finalmente parece começar.

THE DAILY HUMAN

Só para buscar uma caixa

Às dez e meia da manhã, percebo que ainda estou de pijama. Não é exatamente um pijama. É uma camiseta velha e uma calça que já perdeu qualquer compromisso com a aparência.

Estou na frente do computador desde as oito. O café esfriou do meu lado. Abri o e-mail. Respondi duas mensagens. Li uma coisa que precisava ler. Abri um arquivo. Fechei. Abri de novo. A manhã está acontecendo. Só não tenho a impressão de que comecei a trabalhar.

Às onze, chega uma encomenda. O porteiro avisa que não pode subir. Levanto da cadeira e, antes de sair, passo pelo espelho do corredor. Volto para o quarto. Troco a calça. Pego uma camiseta limpa. Coloco um tênis porque não quero descer de chinelo. É só para buscar uma caixa. Cinco minutos depois estou de volta. Deixo a encomenda na cozinha e sento novamente na mesma cadeira.

O computador continua exatamente como estava. O mesmo arquivo aberto. O mesmo café frio. Começo a trabalhar. Só percebo alguma coisa diferente mais tarde, quando vou pegar o café e vejo a camiseta velha em cima da cama.

Durante anos achei que trabalhar de casa tinha uma vantagem óbvia: não precisar me arrumar para trabalhar. Ninguém vê a calça. Ninguém sabe se estou de tênis.

No escritório, eu nunca pensava nisso. Banho. Roupa. Sapato. Chave. Rua. Elevador. Mesa. Quando sentava, já tinha feito um monte de coisas antes de começar.

Em casa, são poucos metros. Cama. Banheiro. Cozinha. Mesa. Às vezes a única coisa separando uma coisa da outra é abrir o notebook.

Olho novamente para a camiseta em cima da cama. Passei a manhã inteira com ela. Até precisar sair por cinco minutos.

  • E lembrei dele

    Alguns cheiros parecem guardar lugares, pessoas e épocas inteiras sem pedir licença à memória.

  • O problema continuou ali

    Eu só ia conferir um detalhe. Quando percebi, quase uma hora tinha passado e o problema continuava exatamente onde estava.