
THE DAILY HUMAN
E lembrei dele
Quando morávamos em Lençóis, o barulho vinha antes. Era um som contínuo, meio mecânico, vindo do quintal da casa ao lado.
Eu já sabia o que aconteceria depois. Esperava um pouco. E o cheiro entrava. Café sendo torrado.
Nossa casa era antiga, de adobe, com pé-direito alto e janelas enormes que ficavam abertas quase o tempo todo. O cheiro atravessava tudo. Eu podia estar em qualquer lugar da casa. De repente estava ali. Café recém-torrado.
A máquina de torra ficava no quintal do vizinho. Eu não gostava dele. Era um sujeito pouco amigável. Durante todo o tempo em que fomos vizinhos, nunca provei aquele café. Nem uma vez.
A máquina funcionou dezenas de vezes a poucos metros da minha casa. Ouvi. Senti o cheiro. Mas nunca bebi.
Anos depois, já longe de Lençóis, passei por um lugar onde estavam torrando café. O cheiro chegou antes que eu visse de onde vinha. E por alguns segundos apareceu a casa. Vi o piso de pedra. As janelas abertas. O quintal. Ouvi aquela máquina. E lembrei dele.
Continuei andando. O cheiro era ótimo. Ele continuava não sendo.
A escova de dentes
A escova estava na minha mão, mas eu não sabia se já tinha escovado os dentes. Talvez o problema não estivesse exatamente na memória.
O ombro duro
Eu achava que estava apenas com o ombro tenso. Até perceber que ele continuava preparado mesmo quando já não havia nada acontecendo.
