
THE DAILY HUMAN
A escova de dentes
A escova já estava na minha mão quando percebi que não fazia ideia se tinha escovado os dentes ou só pensado em escovar. Fiquei parado diante da pia. A torneira ainda pingava. O espelho estava embaçado. Tentei puxar a lembrança, mas ela simplesmente não vinha. Escovei de novo.
Na hora achei engraçado.
Depois comecei a reparar que aquilo acontecia mais do que eu imaginava. Às vezes eu voltava para conferir se tinha trancado a porta. Outras, se tinha desligado o fogão. A dúvida era sempre a mesma: eu fiz isso… ou só lembro de ter decidido fazer?
Passei alguns dias achando que minha memória estava pior. Até perceber uma coisa. Nunca acontece com o que é novo.
A primeira viagem sozinho, o primeiro dia em um trabalho, a primeira noite em outra casa. Essas lembranças ficam. Mas tentar lembrar da escovação de terça-feira passada. É como se ela nunca tivesse existido.
Quando fui entender por quê, descobri que o cérebro faz exatamente o que eu esperava dele: economiza esforço. O que se repete deixa de exigir tanta atenção. Foi aí que a dúvida mudou de lugar. Talvez eu não esquecesse porque minha memória falhava. Talvez eu esquecesse porque eu quase não estava ali.
Desde então, sem fazer nenhum ritual, só demoro um segundo antes de guardar a escova. Olho para ela. Para a pia. Para o espelho. Só isso.
Não para ter certeza de que escovei os dentes. Para ter certeza de que aquela manhã não passou por mim sem que eu passasse por ela.
O prato vazio
O prato estava completamente vazio. O incômodo veio quando percebi que quase não lembrava da refeição que tinha acabado de fazer.
A aba do navegador
Comecei procurando uma informação e terminei com doze abas abertas. O estranho foi perceber o que eu realmente guardava em cada uma delas.
